Eles não usam cocar

julho 23, 2011 § 2 Comentários

Nem andam seminus.

De início, fiquei frustrado e me cobri de preconceitos. Mas descobri que índio não é menos índio por usar uma camisa do Flamengo.

Além de não falarem a própria língua, os Juruna da Terra Indígena Paquiçamba perderam muitos dos costumes de seus antepassados. E lamentam que isso tenha acontecido.

Não que eles estejam descontentes de poder assistir ao jogo Brasil x Paraguai graças aos seus painéis solares, mas porque já não sabem mais quem são, devido a tantos anos de contato com o homem branco.

E esse processo se intensifica.

Agora querem colocar mãos e máquinas no rio Xingu, que é sagrado para os índios da Volta Grande e para tantos outros que habitam a sua margem.

É a água de beber, a água para cozinhar, a água do banho, que é a mesma que fertiliza o solo para plantar; é de onde se tira o peixe, por onde se busca a caça e por onde eles se transportam.

Tudo isso será colocado em risco caso a hidrelétrica saia do papel. A Volta Grande terá a vazão reduzida, porque o percurso do rio será desviado. Ninguém sabe ao certo quanta água restará, mas o pior é que isso parece não ter importância. Afinal, Belo Monte será a terceira maior hidrelétrica do mundo, com 11,2 mil megawatts de potência instalada, enaltecem os entusiastas do projeto.

Mas alguém perguntou aos índios se eles querem megawatts?

O artigo 231 da Constituição assegura que os índios devem ser escutados antes que os rios dentro de suas terras sejam explorados. Até agora, nada.

A Funai e o Ibama estabeleceram 26 condicionantes para que fossem garantidas a “manutenção das terras e melhorias de vida das nove etnias indígenas que serão impactadas pelo empreendimento”. Elas deveriam ser cumpridas antes que a Licença de Instalação da obra fosse concedida. Não foram, e, mesmo assim, a licença saiu.

Os índios estão sendo mais uma vez passados para trás. Mas não vão ficar calados.

Na década de 80, conseguiram barrar a primeira tentativa de erguer Belo Monte — conhecido então como Complexo Kararaô, que previa a construção de seis hidrelétricas. Hoje, pelo o que ouvimos deles próprios, estão novamente dispostos a lutar.

A nossa temporada na aldeia, apesar de curta, foi essencial para que pudéssemos entender melhor a realidade da região. Comemos paca, anta, mutum, piranha e acari. Ouvimos os gritos assustadores dos bugios ao amanhecer, conhecemos a cachoeira do Jericoá e tomamos banho no rio.

Quanto mais andamos, mais complexa vai ficando a questão de Belo Monte nas nossas cabeças.

O país precisa de energia para se desenvolver, isso é certo. É tempo de se repensar, no entanto, o que é desenvolvimento para nós.

Principalmente quando a energia gerada pelas grandes hidrelétricas está, em grande parte, a serviço das multinacionais que exploram e exportam as riquezas do nosso país.

Hoje retornaremos para a casa da Ana Alice e do Zé no Cobra-Choca. Voltamos para Altamira dia 26 e no dia seguinte publico o vídeo que prometi no post anterior.

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