No olho do furacão

julho 12, 2011 § 1 comentário

Estou em Altamira há exatamente uma semana e um dia. Sabia que ao chegar aqui teria muito o que fazer, principalmente muito o que fazer acontecer, mas não imaginava que seria tão difícil.

Mal pisei na cidade e já fiquei doente. Uma virose me derrubou — e mais tarde derrubou o André também — por três dias. Febre, diarreia, cólicas, dor de cabeça e enjoo. Tudo que alguém quer quando está tendo que se deslocar de lá para cá debaixo do sol escaldante.

Recuperei-me parcialmente mas um novo problema surgiu: a sensação de que tudo estava dando errado. Tive a impressão de que sempre estava deixando algo passar. Mas só vou ter certeza disso ao editar o material em São Paulo, quando poderá ser tarde demais.

Altamira, cidade do som alto e de uma belíssima orla, é também o maior município do mundo em extensão territorial (provavelmente devido à grilagem de terra) e onde tudo que envolve Belo Monte acontece.

Plano Geral

Ocupação em andamento

Uma única visita à ONG, Xingu Vivo Para Sempre, e tudo começa a se esclarecer. Os principais personagens da luta contra a construção das barragens encontram-se lá. Chegamos aqui com incertezas, mas com objetivos claros, hoje temos algumas certezas e estamos vivenciando oportunidades que nem imaginávamos que teríamos.

A maior delas foi presenciar e registrar as ocupações que estão ocorrendo pela cidade. O preço dos serviços, bem como do aluguel de terrenos e casas, tem subido exorbitantemente por aqui, tudo causado pelo alvoroço em torno da construção da usina. Aqueles que não têm condições de arcar com essas despesas estão deixando suas casas para tentar a sorte em terrenos abandonados.

Bicicletas, barraco

A casa, o carro, o jardim

Acompanhamos duas das quatro ocupações em andamento. Descobrimos que a maioria das pessoas envolvidas derrubando árvores, cercando o terreno, construindo barracos e queimando a vegetação excedente, morava, ou ainda mora, nos baixões.

Caracterizados por serem alagadiços e ficarem no mesmo ou abaixo do nível do rio, os baixões abrigam a porção mais pobre da sociedade, que sobrevive como pode dentro de barracos precários de palafita com vista para o esgoto a céu aberto. Prometo um vídeo a respeito do tema assim que voltar da roça.

plano geral

Baixão do bairro da Peixaria

Viajaremos de pau de arara hoje ao meio-dia e voltamos dia 16. Ficaremos sem energia elétrica, sinal de celular, linha telefônica, internet e privada. Por um bom motivo, claro. Entraremos em contato com a realidade da população da zona rural de Altamira, mais precisamente das famílias que habitam o travessão 45, conhecido carinhosamente como Cobra-Choca. É lá que o Zé e a Ana Alice, que irão gentilmente nos receber, têm uma propriedade.

plano fechado, detalhe

O esgoto a céu aberto em época de seca

Talvez eu tenha a oportunidade de filmar o andamento das obras da hidrelétrica nas redondezas. Os tratores acabaram de chegar de Belém e já estão abrindo uma estrada que ligará a cidade ao canteiro de obras. Muitos moradores estão reclamando do fluxo intenso de carros e máquinas próximo — e até mesmo dentro — de suas terras e temem por não receber a indenização garantida pela Norte Energia SA.

Horas e horas de material me aguardam. Ainda bem que eu trouxe um painel solar para carregar as baterias da câmera.

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Uma viagem imprevisível, um documentário sem nome

julho 5, 2011 § 1 comentário

Ainda a tempo e encorajado pelo meu parceiro de empreitada, André Solnik, decidi montar um blog a respeito da minha viagem para a região do Xingu, no estado do Pará.

Neste exato momento, estou pendurado em uma rede, amontoado ao lado de outras 50 pessoas em uma balsa que se aproxima do rio Amazonas e que, ao final do trajeto, terá nos levado até Vitória do Xingu, última parada antes de Altamira, “o olho do furacão”.

André, como de costume, descansando

Antes disso, passei duas noites em Belém, onde fiquei hospedado na casa da Dona Socorro, cujo filho, Rafael, o André conheceu pelo Couchsurfing, um site de relacionamentos para pessoas que gostam de viajar mundo afora. Eles moram em Terra Firme, bairro da periferia da cidade, em uma casa que fica em cima de uma padaria e uma academia de ginástica.

Aproveitamos esse tempo para acompanhar uma manifestação contrária a Belo Monte, que ocorreu no centro da cidade, e para conhecer o mercado Ver-o-peso, um dos lugares mais incríveis em que já estive. Registrei tudo isso com a minha câmera e pretendo dar uma pequena amostra dessa aventura nos posts a seguir.

Até então, nossa única certeza é de que estamos a bordo da balsa Gabriela, que transporta mercadorias para as cidades de Breves, Gurupá, Porto de Moz, Senador José Porfírio e Vitória do Xingu.

O restante da viagem promete ser uma incógnita. Nosso maior desafio, provavelmente, será conseguir passar um tempo em pelo menos uma das aldeias indígenas da Volta Grande do Xingu, trecho de aproximadamente 100 km localizado a jusante da futura barragem.

02/07/2011 – 18:36

Onde estou?

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