De baixão para cima

julho 17, 2011 § 3 Comentários

Acabamos de voltar da roça com muita coceira e uma coleção de picadas para administrar. Foi muito interessante passar esses dias vivendo uma vida completamente diferente da qual estou habituado. Reformulei meu conceito de conforto, pois percebi que todo o conforto que sempre tive, para quem vive da terra, é luxo. O trabalho é braçal, duro e inadiável.

Nossa casa na roça por fora...

Gostaria de ter mais tempo para falar dessa experiência, mas não tem sido fácil colocar o blog em dia. Mesmo assim, prometo um vídeo para matar a curiosidade daqueles que querem saber como vive o agricultor familiar aqui no Pará.

por dentro

...e por dentro

Falando em atualizar o blog, estou devendo um vídeo a respeito das ocupações que estão acontecendo aqui na cidade, mas antes de apertar o play, vale a pena retomar o que está acontecendo por estas bandas.

O burburinho causado pela possível construção da barragem de Belo Monte fez com que o preço dos bens e serviços em Altamira subisse. Muitos foram os que não conseguiram arcar com o aumento do custo de vida na cidade e tiveram que recorrer às casas de familiares ou procurar um lugar para morar nos baixões.

Muitos moradores dessas áreas não tem a documentação de suas propriedades, estão desempregados ou vivem de aluguel e não tem condições de adquirir um imóvel próprio.

Somando tudo isso ao medo das pessoas de terem suas casas inundadas com a realização da obra, eclodiram as ocupações. Já são quatro em Altamira e isso, provavelmente, é apenas o começo. Segundo dados do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), durante a construção da UHE Tucuruí ocorreram 37 ocupações na cidade, que fica a 300 quilômetros em linha reta a leste de Altamira.

Conseguimos autorização para visitar uma aldeia indígena!

Amanhã acordaremos cedo para pegar uma voadeira, espécie de lancha que transporta passageiros pelos rios da região. Partiremos em direção à Terra Indígena Paquiçamba, onde vivem os índios Juruna.

Lá, teremos a oportunidade de acompanhar um encontro entre aldeias que tem como objetivo discutir a construção da usina e de entrevistar Felício Pontes Jr., que é procurador da República junto ao Ministério Público Federal em Belém e está bastante envolvido com a causa.

A experiência na roça foi marcante, mas o que esperar de uma temporada em meio aos índios?

Triplicaremos nosso acervo de picadas e ficaremos, novamente, sem chuveiro, privada, acesso à internet ou sinal de celular. Meu painel solar vai garantir que eu continue filmando tudo, mesmo sem ter a certeza do que filmar.

Até dia 22.

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No olho do furacão

julho 12, 2011 § 1 comentário

Estou em Altamira há exatamente uma semana e um dia. Sabia que ao chegar aqui teria muito o que fazer, principalmente muito o que fazer acontecer, mas não imaginava que seria tão difícil.

Mal pisei na cidade e já fiquei doente. Uma virose me derrubou — e mais tarde derrubou o André também — por três dias. Febre, diarreia, cólicas, dor de cabeça e enjoo. Tudo que alguém quer quando está tendo que se deslocar de lá para cá debaixo do sol escaldante.

Recuperei-me parcialmente mas um novo problema surgiu: a sensação de que tudo estava dando errado. Tive a impressão de que sempre estava deixando algo passar. Mas só vou ter certeza disso ao editar o material em São Paulo, quando poderá ser tarde demais.

Altamira, cidade do som alto e de uma belíssima orla, é também o maior município do mundo em extensão territorial (provavelmente devido à grilagem de terra) e onde tudo que envolve Belo Monte acontece.

Plano Geral

Ocupação em andamento

Uma única visita à ONG, Xingu Vivo Para Sempre, e tudo começa a se esclarecer. Os principais personagens da luta contra a construção das barragens encontram-se lá. Chegamos aqui com incertezas, mas com objetivos claros, hoje temos algumas certezas e estamos vivenciando oportunidades que nem imaginávamos que teríamos.

A maior delas foi presenciar e registrar as ocupações que estão ocorrendo pela cidade. O preço dos serviços, bem como do aluguel de terrenos e casas, tem subido exorbitantemente por aqui, tudo causado pelo alvoroço em torno da construção da usina. Aqueles que não têm condições de arcar com essas despesas estão deixando suas casas para tentar a sorte em terrenos abandonados.

Bicicletas, barraco

A casa, o carro, o jardim

Acompanhamos duas das quatro ocupações em andamento. Descobrimos que a maioria das pessoas envolvidas derrubando árvores, cercando o terreno, construindo barracos e queimando a vegetação excedente, morava, ou ainda mora, nos baixões.

Caracterizados por serem alagadiços e ficarem no mesmo ou abaixo do nível do rio, os baixões abrigam a porção mais pobre da sociedade, que sobrevive como pode dentro de barracos precários de palafita com vista para o esgoto a céu aberto. Prometo um vídeo a respeito do tema assim que voltar da roça.

plano geral

Baixão do bairro da Peixaria

Viajaremos de pau de arara hoje ao meio-dia e voltamos dia 16. Ficaremos sem energia elétrica, sinal de celular, linha telefônica, internet e privada. Por um bom motivo, claro. Entraremos em contato com a realidade da população da zona rural de Altamira, mais precisamente das famílias que habitam o travessão 45, conhecido carinhosamente como Cobra-Choca. É lá que o Zé e a Ana Alice, que irão gentilmente nos receber, têm uma propriedade.

plano fechado, detalhe

O esgoto a céu aberto em época de seca

Talvez eu tenha a oportunidade de filmar o andamento das obras da hidrelétrica nas redondezas. Os tratores acabaram de chegar de Belém e já estão abrindo uma estrada que ligará a cidade ao canteiro de obras. Muitos moradores estão reclamando do fluxo intenso de carros e máquinas próximo — e até mesmo dentro — de suas terras e temem por não receber a indenização garantida pela Norte Energia SA.

Horas e horas de material me aguardam. Ainda bem que eu trouxe um painel solar para carregar as baterias da câmera.

Onde estou?

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